Não me contenta a vaga lembrança de um brilho, eu quero apreciá-lo, percebi que além do brilho existe algo mais, conheci a pérola, então compreendi o valor do brilho e tudo fez sentido quando me deparei com o afável colecionador da pérola que me atrai e me constrange. Todos têm o direito de dizer que amor é tudo o que se faz com amor, mas isso só faz aumentar a angústia de não se saber o que de fato ele seja. Isso porque a idéia que muitos têm de amor é vazia, assim a apreciação de um amor vazio está nos levando para cada vez mais distante do que seja de fato o amor. Talvez porque reinventamos o amor, o configuramos do nosso jeito, a lembrança que era simplesmente um impulso que nos levava a buscá-lo, fizemos desse impulso ferramentas para reinventá-lo. Sendo assim estamos ainda apreciando uma vaga lembrança de um amor vazio, e não o brilho dele, porque um amor que se pode reinventar não passa de amor esvaziado de sentido e ofuscado pelo egoísmo do eu.
O que quis dizer foi que não sabemos o que é amor, mas mesmo assim queremos amar mesmo sem saber o que ele seja. Quando não sabemos o que é o amor, nos contentamos com o que muitos dizem sobre ele e amamos como todos amam. Por isso é lindo dizer que “amor é fogo que arde sem se ver; É ferida que dói e não se sente; É um contentamento descontente...”, e quero amar mesmo quando o poeta não me diz nada de novo, só reafirma de que não sabemos o que é o amor.
Todos nós temos o impulso para amar, mas é muito mais que isso, amor é um contínuo aprendizado e não aprendemos a amar amando, aprendemos a amar de verdade quando nós somos amados e assim amamos. Isso se não quisermos cair no idiotismo de reinventarmos o amor temos que primeiro ser amados, logo alguém tem que amar primeiro, ou nos exemplificar subjetivamente o que é amor. E, assim foi: “Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou seu Filho” (1Jo 4.10). O amor não precisa ser recriado, o amor é criativo, a criatividade do amor se notifica na dimensão “Deus, eu e você” que perfaz o nós.
A melhor maneira, talvez a única, de viver e ensinar o amor é servindo e perdoando, no serviço você faz algo por alguém, e no perdão você reafirma o que fez. Amor é mais que palavras, é sacrificar-se, é entregar-se, é mais que sentimento é uma escolha, nós escolhemos amar, porque quem não tem a oportunidade de escolher não saiu das garras da paixão. Portanto o amor jamais foi cego, ele vê os defeitos, mas vendo-os prefere valorizar as qualidades, ama apesar de, por isso perdoa. Amor sem o ato da entrega não é amor, e amor sem perdão nega a entrega. Jesus foi o exemplo máximo de amor, ele foi o exemplo máximo de entrega pela humanidade. “Sabemos o que é amor por causa disto: Cristo deu a sua vida por nós. Por isso nós também devemos dar a nossa vida pelos nossos irmãos” (1João 3.16). “Amados, se Deus de tal maneira nos amou, devemos nós também amar uns aos outros” (1Jo 4.11). Assim aprendemos com Cristo a amar, ou melhor, amamos através de Cristo.
Mas se ilude quem pensa que o amor não é ambicioso, a ambição do amor está em ver a pessoa amada crescer por meio do sacrifício feito pelo “eu”, por isso o “eu te amo” é pouco, é hipocrisia, é chula se não for expressão do “eu me dou para que você seja...”. “Deus amou tanto o mundo que deu seu único Filho, para que todo que nele confia possa ter a vida eterna, em vez de ser completamente destruído” (João 3.16 – Tradução NT Judaico). Deus nos ama por isso se sacrificou para que nós sejamos aquilo que fomos criados para ser, ele se entregou para que nele pudéssemos desenvolver todas as nossas potencialidades como seres humanos, viver plenamente.
Perceber-se amado por Deus é ser humilhado por Ele, portanto, o amor humilha porque “Deus é amor”. No entanto, Deus não nos humilha nos humilhando, nos humilha nos amando, se entregando por nós, perdoando nossas idiotices e, ainda assim, permanecendo conosco. Quanto mais acredito que não mereço, aí é que Ele faz por mim, se preocupando com os mínimos detalhes de minha vida, e Ele continua fazendo muito mais que isso. Assim, sou envergonhado, sou constrangido, me sinto impuro diante de tamanha bondade, sou levado a perceber minha própria miséria, por isso me revolto, só que a revolta dessa humilhação jamais será o ódio, será um profundo amor, porque de uma maneira tão fascinante e constrangedora fui humilhado por Ele, e não há como não amá-lo. Ser humilhado pelo amor é ser constrangido por Deus em Cristo (2Coríntios 5.14), portanto se não conseguirmos amá-lo tanto assim, vivamos o constrangimento desse amor amando uns aos outros, como Cristo nos amou (João 13.34). Assim, conhecemos a pérola e o seu colecionador que me atrai e me constrange.
Lucas Nascimento

